sábado, 20 de dezembro de 2014

O ANO QUE NÃO VEM



O ANO QUE NÃO VEM
Publicado no caderno de Admite-se do Jornal Estado de Minas de 13/04/2014

Dia desses conversava com um amigo quando ele me saiu com uma dessas: – Semana que vem vou fazer uma big festa de aniversário. Afinal não é todo dia que a gente comemora cinquenta e dois anos. Verdade. Mais verdade ainda é que só se comemora qualquer coisa uma única vez, independente do que seja essa coisa. A vida tem características muito especiais para ser reproduzida ou mesmo repetida. Nós é que perdemos de vista essa imparidade das coisas e deixamos de ver a novidade que nos cerca a todo instante. Aí, precisamos de datas. Mas a verdade é que nunca se entra duas vezes no mesmo rio. Se não tenho esse discernimento, o ano que vem, não vem. Não vem se a gente não estiver aberto cotidianamente para a novidade; não vem se julgarmos que a celebração da novidade só ocorre na transição de trinta e um de dezembro para primeiro de janeiro; não vem se privilegiarmos a rotina, exagerarmos na valorização dos espaços conhecidos, nos tornarmos acomodados. Mas, se estivermos atentos à vida e às coisas que nos cercam, a novidade ocorrerá a todo instante e aí haverá motivos cotidianos para celebrar, seja no final do ano, seja no dia do seu aniversário, seja a qualquer momento.

Essa novidade que a vida nos oferece é para que aprendamos que as coisas e as pessoas estão sempre nos oferecendo razões para criar um juízo de encantamento sobre a vida. Estar com a emoção em festa é reconhecer a constante novidade de tudo. Às vezes temos dificuldades em perceber isso porque não distinguimos os três modelos de vida que vivemos: a vida sentida, a vida aprendida e a vida raciocinada. Fomos criados para viver no dinamismo destas três dimensões. Em cada momento ou circunstância, a vida sentida nos promove a possibilidade de degustar coisas novas, de nos impressionar com a novidade que se descortina à nossa frente. Encantados com isso, a vida torna-se um carrossel de surpresas que nos promove encantamentos. Algumas boas, outras nem tanto, mas todas contribuindo para que a vida tenha emoção, sentido e gosto, além de nos proporcionar os contrapontos necessários para que saibamos apreciar as coisas exatamente porque elas transitam e mudam.

A vida sentida é a dimensão de maior ganho de conhecimento, experiência e maturidade. No entanto, é a dimensão na qual temos as maiores dificuldades porque fomos formados por uma filosofia de vida que gosta exageradamente de rotinas, padrões e previsões. Esse gostar exagerado da previsibilidade e do controle das coisas muitas vezes é fruto da vida que aprendemos a partir de nossas referências. Pessoas que nos foram significativas ao longo de nossa história, pais, professores, chefes, amigos, etc, direta ou indiretamente nos forneceram modelos de relacionamentos que acabamos por adotar, quase que inconscientemente. Isso se torna na nossa vida aprendida. Aprendemos a atuar de uma forma e o fazemos tão naturalmente que ela se torna automática. Construímos comportamentos e padrões de resposta sobre as coisas de um modo tal que não nos apercebemos das novidades. Essa vida aprendida nos dá segurança porque nos sentimos confortáveis. É melhor atuar a partir do que se sabe do que imergir no universo desconhecido. É claro que isso tem aspectos positivos e negativos. Positivo, porque nos sentimos seguros atuando numa dimensão conhecida. Quando não se sabe o que fazer, faz-se o que se sabe e isso nos deixa “em paz”. Diz o ditado popular: “para quem só tem martelo, tudo se resolve em marteladas”. Negativo, porque esse tipo de vida reduz significativamente nossa capacidade de aprender e viver em novidade de vida. Resultado, nos enchemos de manias e preconceitos, valorizando excessivamente nosso estado de conforto e facultando muito uma visão egoísta da vida.

Entre a vida sentida e a vida aprendida, surge aquele tipo de vida que nos tornará mais adequados: a vida raciocinada. Muito do que sentimos é verdadeiro, mas inadequado. O mesmo se diz da vida aprendida. Com o tempo as coisas vão mudando e requerendo de nós outros olhares. Já não vejo mais a vida com os olhos de um adolescente, mas isso não torna o olhar adolescente errado ou inadequado. Muitos de nós, em função da vida aprendida, esquecemos que já fomos jovens e tratamos a juventude com excessivo rigor e crítica. A vida raciocinada é aquela que nos permite entender que tudo nos é possível, mas que às vezes não nos convém. Cada tempo, cada idade, cada circunstância, requer de nós uma mirada diferente sobre as coisas, sem invalidar as miradas que outros têm por estarem em outros contextos de vida. Perder esta perspectiva é valorizar mais as datas do que a novidade que se celebra. Embora a contagem regressiva ocorra, os espumantes sejam abertos, os fogos estourados, os abraços ocorram efusivamente e o votos de feliz ano novo se multipliquem, sem a perspectiva da novidade, o ano que vem, não vem. Será apenas mais uma virada.

A festa do meu amigo só será, de fato, uma celebração, se for a inauguração de um novo compromisso com o sentir intenso. O compromisso de fazer de cada momento um momento único, sabendo que tão rápido como chegou, também passará, deixando apenas uma lembrança. Se vivemos ou não essa novidade, é uma escolha nossa. A vida nos oferece a cada momento a possibilidade de nos encantarmos com as surpresas e de aprendermos com elas. Esse olhar fará, de fato, com que o ano que vem, venha a todo momento e aprender com isso será algo transformador.

Reflitam em paz!

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