domingo, 23 de novembro de 2014

O que faz um pai ser perfeito?


Terá existido algum dia uma arte tão zelosamente convertida em ciência quanto a da parentalidade?
Ao longo das últimas décadas, um rebanho vasto e variado de especialistas em parentalidade surgiu no cenário. Qualquer um que tente, ainda que acidentalmente, seguir seus conselhos corre o risco de ficar paralisado, pois a sabedoria convencional em termos de parentalidade muda a cada hora. Vezes há em que isso decorre da divergência entre dois especialistas. Noutras, os especialistas mais badalados concordam em massa, de repente, que a sabedoria convencional até então vigente estava errada e que a nova, ao menos por algum tempo, é irrefutavelmente válida. A amamentação, por exemplo, é a única maneira de assegurar que uma criança seja saudável e intelectualmente apta - a menos que a mamadeira seja a resposta. Um bebê só pode ser posto para dormir de barriga para cima - até que seja decretado que ele só pode ser posto para dormir de bruços. Comer fígado é: a) tóxico, ou b) obrigatório para o desenvolvimento do cérebro. Aposente o cinto e mime a criança; dê palmadas e vá preso.
Em seu livro Raising America: Experts, Parents, and a Century of Advice About Children* Ann Hulbert documentou a freqüência com que os especialistas em educação infantil contradizem uns aos outros e até mesmo a si próprios. Sua falação seria hilária se não causasse tanta confusão e, muitas vezes, medo. Gary Ezzo, que na série de livros Babywise avaliza uma "estratégia de administração da criança" para mães e pais em busca "da perfeição como genitores", enfatiza a importância de habituar um bebê, desde cedo, a dormir sozinho a noite toda. Do contrário, adverte Ezzo, a falta de sono pode "causar um impacto negativo sobre o desenvolvimento do sistema nervoso central da criança", levando a dificuldades de aprendizado. Por outro lado, os que defendem que o bebê deve "dormir acompanhado" advertem que dormir sozinho é psicologicamente prejudicial para o bebê e que o mesmo deve ser acolhido na "cama da família". E quanto à estimulação? Em 1983, T. Berry Brazelton escreveu que um bebê vem ao mundo "totalmente equipado para aprender sobre si mesmo e o mundo que o cerca". Brazelton era a favor de uma calorosa estimulação precoce - uma criança "interativa". Cem anos antes, porém, L. Emmet Holt alertara para o fato de que um bebê não era um "brinquedo". Não devia haver "pressão, coação ou estimulação indevida" durante os dois primeiros anos de vida. Para Holt, o cérebro se desenvolve de tal forma nesse período que uma estimulação exagerada pode "causar muitos danos". Ele acreditava, também, que um bebê que chora não deve ser posto no colo a menos que esteja com dor. Sua explicação era a de  que é preciso deixar um bebê chorar de 15 a 30 minutos por dia: "Esse é o exercício do bebê."
O típico especialista dessa área, como os de outras, tende a passar uma excessiva autoconfiança. Um especialista não fica pesando todos os lados de uma questão: finca logo uma bandeira num deles. Isso acontece porque um especialista cujos argumentos soem comedidos ou reticentes não atrai muita atenção. Um especialista tem que ser direto se o que pretende é transformar sua teoria de algibeira em sabedoria convencional. O melhor meio para consegui-lo é falar à emoção da platéia, pois a emoção é a inimiga da argumentação racional. Em termos de emoções, uma delas - o medo - é mais forte que as demais. O superpredador, as armas de destruição em massa iraquianas, o mal da vaca louca, a síndrome da morte súbita de bebês: como ignorar os conselhos do especialista nesses horrores quando, à semelhança do tio malvado que conta histórias de terror para crianças pequenas demais, ele nos reduz a bebês apavorados?
Ninguém é mais suscetível ao terrorismo de um especialista do que um pai ou uma mãe. O medo é, na verdade, um componente de peso no exercício da parentalidade. Um genitor, afinal é o zelador da vida de uma outra criatura, criatura essa que no começo é mais indefesa do que o recémnascido de praticamente qualquer das outras espécies. Isso leva um bom número de pais a gastar um bocado da energia de que precisam para criar os filhos administrando o medo.
O problema é que eles costumam temer as coisas erradas. Não lhes cabe culpa por isso. Distinguir fatos de boatos é sempre difícil, principalmente para um pai (ou mãe) ocupado. E o burburinho causado pelos especialistas - para não falar na pressão por parte de outros pais - é tão acachapante que eles quase não conseguem pensar por si mesmos. Os fatos que conseguem enxergar em geral já foram maquiados ou exagerados, se não mesmo descontextualizados, para servir ao interesse de terceiros.
Consideremos os pais de uma menina de oito anos chamada -digamos - Molly. Suas duas melhores amigas, Amy e Imani, moram na vizinhança. Os pais de Molly sabem que os pais de Amy têm uma arma em casa e por isso proibiram Molly de brincar lá. Por essa razão, Molly passa um bom tempo na casa de Imani, onde existe uma piscina na parte dos fundos. Os pais de Molly estão satisfeitos por terem feito uma escolha inteligente visando à segurança da filha.
Segundo os dados, contudo, essa escolha nada tem de inteligente. Todos os anos há um afogamento infantil para cada 11 mil piscinas residenciais nos Estados Unidos (num país com 6 milhões de piscinas, isso representa, aproximadamente, 550 crianças de menos de dez anos afogadas anualmente). Enquanto isso, a possibilidade de morte infantil por arma de fogo é de uma para cada 1 milhão de armas (num país com um número estimado de 200 milhões de armas, isso significa que 175 mortes de crianças são causadas anualmente por armas de fogo). A probabilidade de morte por afogamento em uma piscina (1 em 11 mil) contra morte por arma de fogo (1 em 1 milhão) nem sequer é digna de comparação: Molly tem aproximadamente 100 vezes mais possibilidade de morrer afogada na casa de Imani do que brincando com a arma dos pais de Amy.
No entanto, a maioria de nós, como os pais de Molly, é incompetente para calcular riscos. Peter Sandman, que se autodescreve como "consultor de riscos" em Princeton, New Jersey, deu seu parecer no início de 2004 depois que um único caso do mal da vaca louca nos Estados Unidos provocou um frenesi anticarne de boi. "A realidade é que", disse ele ao The New York Times, "os riscos que assustam as pessoas e os riscos que causam suas mortes são muito diferentes".

(...)

Abaixo estão os oito fatores que estão fortemente correlacionados com as notas escolares:
  • A criança tem pais muito instruídos.
  • Os pais da criança têm alto nível socioeconômico.
  • A mãe da criança tinha 30 anos ou mais na ocasião do nascimento do primeiro filho.
  • A criança nasceu com baixo peso.
  • Os pais da criança falam a língua nacional (inglês) em casa.
  • A criança é adotada.
  • Os pais da criança estão engajados na Associação de Pais e Mestres.
  • A criança tem muitos livros em casa.

E os oito que não estão:
  • A família da criança está intacta.
  • Os pais da criança se mudaram recentemente para um bairro melhor.
  • A mãe da criança não trabalhou fora entre o nascimento do filho e a sua entrada no jardim-de-infância.
  • A criança fez parte do programa pré-escolar Head Start.
  • A criança é espancada com freqüência.
  • A criança assiste bastante à televisão.
  • Os pais lêem para a criança quase diariamente.

(...)

Supergeneralizando: a primeira lista descreve coisas que os pais são; a segunda, coisas que os pais fazem. Os pais realmente instruídos, bem sucedidos e saudáveis tendem a ter filhos que se saem bem na escola. Aparentemente, porém, não faz grande diferença o fato de uma criança freqüentar museus, apanhar ou participar do programa pré-escolar Head Start, nem o de ler assiduamente ou se plantar diante da televisão.
Para os pais - e os especialistas em parentalidade - que estejam obcecados com técnicas de criação de filhos, isso pode ser uma má notícia. A realidade é que, aparentemente, a técnica vem sendo supervalorizada.
No entanto, isso não significa que os pais não tenham importância. E claro que têm um bocado. Esta é a charada: quando se pega um livro sobre como criar filhos, já é tarde demais. A maior parte das coisas importantes foi decidida há muito tempo - quem somos, com quem nos casamos, que tipo de vida levamos. Se você é inteligente, trabalhador, instruído, ganha bem e está casado com alguém igualmente privilegiado, seus filhos têm grandes chances de se dar bem na vida (também não atrapalha, ao que tudo indica, ser honesto, equilibrado, carinhoso, bem como interessado pelo mundo à volta). Porém não se trata tanto do que você faz como pai, mas de quem você é. Nesse sentido, um pai superprotetor lembra muito um candidato político que acredita que o dinheiro ganha eleições, quando na verdade todo o dinheiro do mundo não é capaz de eleger alguém que os eleitores não apreciem.
Em um trabalho intitulado "The Nature and Nurture of Economic Outcomes", o economista Bruce Sacerdote abordou o debate naturezacriação, fazendo uma avaliação quantitativa de longo prazo dos efeitos da criação de um filho. Utilizou três estudos sobre adoção - dois americanos e um inglês -, contendo dados consistentes a respeito das crianças adotadas, seus pais adotivos e os biológicos. Sacerdote descobriu que os pais que adotam filhos são quase sempre mais inteligentes, mais instruídos e mais bem pagos do que os pais biológicos do bebê. No entanto, as vantagens dos pais adotivos exercem pouca influência sobre o desempenho escolar do filho. Como também foi visto nos dados do Estudo Longitudinal, os filhos adotivos tiram notas relativamente baixas na escola; qualquer que seja a influência que os pais adotivos exerçam, ela aparentemente é suplantada pela força da genética. Sacerdote descobriu, porém, que os pais não permanecem impotentes para sempre. Ao se tornarem adultos, os filhos adotivos já deram uma guinada expressiva quanto ao destino que lhes fora reservado apenas em função do seu QI. Comparados a crianças similares que não foram entregues à adoção, observou-se que os adotados são muito mais propensos a freqüentar a universidade, conseguir empregos bem remunerados e esperar até o final da adolescência para casar. É a influência dos pais adotivos, concluiu Sacerdote, que faz a diferença.
* Nota da Tradutora: "Educando os Estados Unidos: Especialistas, Pais e um Século de Conselhos sobre os Filhos".

Trecho do livro Freakonomics - O Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta.

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