sábado, 7 de setembro de 2013

LLC: Sentimento do mundo

Autor: Carlos Drummond de Andrade
Ano Publicação: 1940
Nota: 9



Ler Carlos Drummond de Andrade é sempre um prazer. Mineiro de Itabira ("Noventa por cento de ferro nas calçadas./ Oitenta por cento de ferro nas almas"), morou em Belo Horizonte e se fixou por fim no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 1987. Foi o mais influente poeta brasileiro do século XX. Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas. É comum estabelecer a poesia de Drummond a partir da dialética EU x MUNDO, desdobrando-se em três atitudes:
  • Eu maior que o mundo — marcada pela poesia irônica
  • Eu menor que o mundo — marcada pela poesia social
  • Eu igual ao mundo — abrange a poesia metafísica
A obra Sentimento do Mundo foi publicada no ano de 1940, em tiragem de apenas 150 exemplares os quais foram distribuídos a amigos e outros escritores. O contexto histórico é o Estado Novo de Getúlio Vargas com a outorga da Constituição Polaca, o acirramento do Nacionalismo exacerbado no mundo e consequentemente a expansão das doutrinas do Nazismo e Fascismo na Europa. Disfarçado pelo populismo com a aprovação dos direitos trabalhistas Getúlio Vargas a ser apelidado de “o pai dos pobres”, mas também ”mãe dos ricos”. As contradições da época levam a reflexão sobre as tensões e novidades da cidade moderna com seu ritmo alucinante e ao  questionamento da própria existência humana, do sentimento de “estar-no-mundo”, das inquietações social, religiosa, filosófica e amorosa. 

Realmente é minha obra favorita do autor!
Escolhendo uma poesia da obra fico logo com a primeira, homônima ao livro.

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
 e o sentimento do mundo,
 mas estou cheio de escravos,
 minhas lembranças escorrem
 e o corpo transige
 na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
 estará morto e saqueado,
 eu mesmo estarei morto,
 morto meu desejo, morto
 o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
 que havia uma guerra
 e era necessário
 trazer fogo e alimento.
 Sinto-me disperso,
 anterior a fronteiras,
 humildemente vos peço
 que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
 eu ficarei sozinho
 desfiando a recordação
 do sineiro, da viúva e do microscopista  que habitavam a barraca  e não foram encontrados  ao amanhecer

esse amanhecer
 mais noite que a noite.

Um sentimento de incapacidade é demonstrado logo nos dois primeiros versos: "Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo". Logo após o cotidiano vivenciado pelo autor é registrado com apontamentos sobre as relações política, a miséria, o trabalho, a guerra que se vê eminente e a impotência sobre a realidade que se mostra. O texto é finalizado em uma estrofe com um enorme pessimismo frente ao futuro pois o “amanhecer” é “mais noite que a noite”.



Gosto principalmente do começo do poema. Ele mostra o EU menor que o MUNDO, mas transforma o mundo em algo capaz de sentir. Fazer poesia é isto: transformar sentimentos em palavras!

Um comentário:

Angel disse...

Drummond é muito querido, mestre da poesia...amo!

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