quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

LLC: Diário de Anne Frank

Autor: Anne Frank
Ano Publicação: 1947
Nota: 9



Sempre que posso, ao escolher um roteiro turístico, aprecio escolher obras literárias e/ou cinematográficas ligadas àquela região ou cultura. É sempre bom agregar histórias, estórias e aguçar a curiosidade pelo que estar por vir, e me sinto assim mais apta para viver os sentimentos daquele local. Às véperas de minha viagem para Europa, tendo em mente que passaria alguns dias em Amsterdam, optei por reler uma obra que havia lido quando era muito jovem, e que já não lembrava muito bem de todos os detalhes.

O Diário de Anne Frank (também chamado de Diário de Uma Jovem em algumas versões) foi o meu companheiro das muitas horas de vôo entre minha cidade e o velho continente. O livro traz os relatos de uma menina judia cujo pai preparou um esconderijo no sótão de sua antiga empresa para que sua família e mais alguns amigos pudessem se refugiar durante a invasão nazista na cidade de Amsterdam. Mais que um simples diário, a narrativa mostra o triste dia-a-dia dos oito habitantes do "Anexo Secreto", bem como as reflexões de uma menina que exercia o pensar e amava a vida.

Reler a obra com toda certeza fez toda a diferença em meu passeio. A capital holandesa nos oferece como o ponto turístico mais visitado a Casa de Anne Frank (Anne Frank Huis), tal qual o livro nos narra. Andar por aquele anexo e ser capaz de enxergar seus oito habitantes, lembrando dos detalhes mais tristes e mais angustiantes... Olhar pelas frestas das janelas e tentar imaginar o quão doloroso aqueles 2 anos devem ter sido para eles... Olhar para as paredes e ver as gravuras que aquela menina-mulher colou numa tentativa de forjar a triste realidade de se viver como um fugitivo de guerra... Caminhar sobre as tábuas rangentes e tentar imaginar como deveria ser viver sem poder se movimentar em horário comercial, ou mesmo ir ao banheiro, para não levantar suspeitas... Era possível sentir como aqueles anos devem ter sido muito angustiantes para os que lá habitavam, e creio que só mesmo o temor da morte para dar forças a todos.


A entrada do anexo, disfarçada por um falso armário.
Foto disponível em http://images.google.com

Não contive minhas lágrimas ao reler alguns trechos estrategicamente posicionados em todo o percurso e também ao visitar duas exposições, em um prédio anexo. A primeira era um memorial ao Holocausto, e a segunda, em homenagem à mãe de Anne, Edith Frank-Holländer. Quem já leu a obra sabe que as duas não se relacionavam muito bem, e como só temos a perspectiva da filha adolescente, temos o retrato de uma mãe megera. A própria obra, à medida que a filha amadurece, já nos dá algumas dicas que a verdade não era bem esta, e após ver a exposição, assistir a filmes de amigos dos Frank, ver inúmeras fotografias e ler os relatos dos familiares, saímos de lá com a certeza que Edith era uma mãe como todas as outras, dedicada e preocupada com sua prole, e que não desejava os horrores para suas filhas.

O momento mais emocionante porém foi quando pude, através de um vidro, ver os diários, cadernos e manuscritos de Anne. Sua caligrafia redonda e seu capricho no traçar são impressionantes. É como se eu pudesse visualizar a própria Anne em minha frente, sentir o seu afã de querer manifestar-se, exprimir-se, enfim, viver em toda sua plenitude.


O diário sob a redoma de vidro.
Foto disponível em http://images.google.com

A surpresa de minha visitação, porém, foi poder conhecer a história de como o diário e demais cadernos puderam sobreviver sem terem sido destruídos pela Gestapo.

Recomendo a todos a leitura deste triste livro e, se puderem, a visitação à Casa de Anne Frank, em Amsterdam. Não assisti ao filme homônimo, e creio que, ainda que tenha sido vencedor de muitos prêmios (tal como o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Shelley Winters, dentre outros), nada deverá ser mais tocante e sensibilizante do que as palavras de uma jovem que a guerra transformou precocemente em mulher. Deixo as palavras da própria Anne como incentivo à leitura deste que foi o meu último livro de 2011.

"É realmente inexplicável que eu não tenha deixado de lado todos os meus ideais, porque eles parecem tão absurdos e impossíveis de se concretizarem. Mesmo assim eu os conservo, porque ainda acredito que as pessoas são boas de coração. Simplesmente não posso edificar minhas esperanças sobre alicerces de confusão, miséria e morte. Vejo o mundo gradativamente se tornando uma selvageria. Escuto o trovão se aproximando, cada vez mais, o que nos destruirá também; posso sentir o sofrimento de milhões e ainda assim, penso que tudo irá se corrigir, que esta crueldade também terminará. Enquanto isso, preciso adiar meus ideais para quando chegarem os tempos em que talvez eu seja capaz de alcançá-los." (15 de julho de 1944)

Nós na entrada do museu, em Amsterdam.

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